sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

I.A.M.B.

                         

E ai que no meio de uma aula de Behaviorismo você lembra daquela menina branquela que   a um ano atrás costumava sentar todos os dias ao seu lado, com o seu típico cheiro do cigarro fumado pela manhã. 
Logo cedo ela já estava lá, dormindo debruçada por sobre suas coisas. Os headphones, inconfundíveis a quilômetros, em seus ouvidos tocando algum daqueles clássicos que se você curte boa música, certamente conhece. 
Hora ela se esforçava para não cair no sono, hora ela levantava infindáveis questionamentos acerca do que era mostrado a ela. 
Sua impaciência…seus olhos de ressaca. “Olhos verdes e maus.”. 
…ah, e por sinal, seu livro ainda está comigo. 


 

How soon is now?




Ao voltar pra casa, cantarolava aleatoriamente sem perceber uma música dos Smiths quando o trecho muitas vezes pensado, me tocou de maneira singular. 

I am human and I need to be loved just like everybody else does

Já dizia um suposto sábio que um dia conheci, as histéricas só querem ser amadas. Bom...assim como todos os seres humanos, certo? 
Até mesmo aqueles cujo transtorno de personalidade antissocial  a exemplo dos psicopatas, que por mais que sua conduta seja prejudicial aos outros, também querem ser amado. Se no caso, não pelos demais,  amado por si mesmo. 

Pelo caminho então parei para imaginar uma sociedade (se não totalmente, quase) oposta à nossa. Onde a necessidade emocional não residiria em ser amado, e sim em ser odiado. Imagine que todos nascessem envoltos em uma atmosfera de total amor incondicional provindo de todos os vértices de seu meio social. Imagine aquele amor dos mais melosos que pode-se extrair das histórias de romance piegas. 
Pai, filho, porteiro, policial, médico, prefeito, famosos. 
Todos partilhando e sentindo amor puro e verdadeiro ao próximo. Sendo a única alternativa a esse sentimento, a indiferença, que por fim logo desapareceria no momento em que pessoas se conhecessem.
Negros, pretos, pobres, homossexuais e todas as minorias não se dariam conta de seu status de minoria, pois o amor e respeito seriam a cegante máxima. 

Qual seria a necessidade inquietante que envolveria esses corações amorosos que não o raro ódio? 
Despertar naturalmente esse sentimento seria uma desejada e árdua tarefa a se cumprir durante a vida. As menininhas sonhariam com o dia em que os namoradinhos lhes dissessem: "Eu te odeio.".
Existiriam aqueles que procurariam a todo custo encontrar o ódio e se entregar totalmente à ele. 
Livros sobre como despertar o ódio da pessoa que você mais deseja que lhe odeie seriam lançados.
Aqueles que se assumissem odiadores um pelo outro para o resto da vida seriam invejados.
A eterna busca pela satisfação do ser humano teria sua natural continuidade. E o que é essa busca se não o vislumbre do desconhecido? O que muitos não sabem é que o desconhecido está logo ali ao lado, mora pertinho; tal qual esses dois amigos íntimos que dividem a mesma casa: amor e ódio. 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O universo conspira para contribuir com a confusão mental que passa pela sua cabeça ao meio dia de uma segunda feira, dentro do ônibus. 
Você olha para o lado despretensiosamente, a cabeça cheia de ecos, e então a janela te mostra fragmentos do passado.
Na rua, graciosamente, ela anda. Os cabelos ao vento, o cigarro ainda não aceso na boca. A bolsa marrom estranhamente familiar atravessada no ombro. As mãos a procurar pelo isqueiro em um dos bolsos da calça. Será que é ela?
Você aproxima-se mais do vidro, aperta os olhos para ter certeza... É ELA.
 Sua boca sorrindo sussurra seu nome, enquanto ela passa distraída pela calçada cheia de pessoas apressadas. Por um breve momento tudo vai embora, você apenas revê o passado. 
Depois disso, o barulho do transito ressoa novamente, os ecos em sua cabeça sentem-se livres para voltarem e por fim, o ônibus enchendo-se de passageiros parte de sua parada e segue seu caminho te levando para casa.



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O cachorro estava ali, talvez já conhecesse bem o lugar. Perambulando todos os dias em busca do que talvez nem ele soubesse. Um pequenino nômade, vulgarmente chamado de vira-lata. Pessoas indo e vindo todos os dias a todo o momento.   
‘Será que alguém me vê?’
No cabalístico dia dos três onzes, cruzaram seu caminho três figuras distintas. Três forasteiros vindos de terras distantes. Dizem que os animais são mais sensitivos que os seres humanos. 
Talvez.
Talvez só esse fosse.
Entre todas aquelas pernas que por ele passavam, de longe ele avistou as dos três forasteiros, que pelas muitas caminhadas juntos já possuíam o mesmo ritmo nos passos. O pequenino nômade os enxergou como se visse algo pela primeira vez. Talvez seus sentidos aguçados tenham lhe segredado que ali estavam pernas pertencentes a almas que finalmente o olhariam. 
Seu corpo o denunciou, foi rápido que os três perceberam a alegria estampada no balançar do rabo.  
O viram, finalmente o viram!

Os três forasteiros que muito têm de especial, o viram!
E depuseram algum tempo de sua correria àquele ser feliz e entusiasmado. É verdade que entre os três cogitou-se a possibilidade de o levarem por seus caminhos. Três forasteiros e um pequeno nômade. 
O mundo cruel quis que por fim seus caminhos seguissem direções distintas.  

O carinho feito na alma do pequeno nômade e o sorriso posto nos rostos dos três forasteiros. 
Nômades são nômades e forasteiros são forasteiros. Quem sabe um dia, as duas retas que agora correm paralelas voltem a se encontrar no infinito?